quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quem pode troçar desta Igreja?

A Igreja Católica não é só a do Vaticano: para além das cúpulas, que há muito se desviaram das suas raízes, há uma outra igreja de homens e mulheres que merece todo o respeito e admiração

Jesus não ficou conhecido por pontificar a partir de palácios, encobrir escândalos ou emitir éditos paleolíticos a propósito de questões sociais. Alguém pensará que Ele teria protegido padres que violassem crianças?

As cúpulas da Igreja podem ter-se desviado das suas raízes, mas a maioria das pessoas nas suas bases continuam a ser um exemplo de devoção. Vim até aqui, ao empobrecido Sudão meridional, para escrever sobre problemas sudaneses e não sobre a Igreja Católica. Contudo, mais uma vez, fico espantado por ver que muitas das pessoas altruístas que dão assistência aos mais necessitados do mundo são humildes freiras e padres, que se destacam não pela magnificência do trajo, mas pela magnitude da compaixão.

Como já tive ocasião de referir, parece haver duas Igrejas Católicas: o clube de velhos comparsas no Vaticano e a rede de humildes padres, freiras e laicos em lugares como o Sudão. O Vaticano apoia muitos esforços caritativos e alguns bispos e cardeais são exemplares, mas a grande alma da Igreja Católica encontra-se nas bases mais humildes.

O Vaticano considera que este jornal e outros meios noticiosos têm sido injustos ou manifestado excesso de zelo a esgravatar no encobrimento pela Igreja das violações de crianças. Sou de opinião contrária. Nenhuma instituição fez mais para elevar a estatura moral da Igreja Católica nos EUA que o "The Boston Globe". A sua cobertura pioneira, em 2002, dos abusos perpetrados por padres levou a reformas e, segundo a opinião de muita gente, a uma significativa redução dos abusos. As crianças católicas estão hoje mais seguras, não devido à liderança dos cardeais, mas por causa do "The Boston Globe".

Porém, os dirigentes da Igreja têm razão numa coisa: existe um snobismo liberal e secular contra a Igreja no seu todo, e isso é injusto.

Pode ser fácil, num beberete em Nova Iorque, lançar comentários depreciativos a propósito de uma Igreja cujas cúpulas são chauvinistas, homofóbicas e tão divorciadas da realidade que condenam o uso de preservativos inclusivamente para combater a sida. Mas que dizer do padre Michael Barton, um sacerdote católico de Indianápolis? Conheci-o na remota aldeia de Nyamlell, a 200 quilómetros da estrada alcatroada mais próxima, no Sul do Sudão. Dirige quatro escolas para crianças que sem ela não teriam acesso ao ensino. Os alunos dessas escolas têm as melhores notas nos exames nacionais.

O padre Michael veio para o Sudão em 1978 e fala fluentemente dinka e outras línguas locais. A bem da sobrevivência das suas escolas, suportou a guerra civil, a risão e espancamentos e ainda um sortido de doenças. "É perfeitamente normal ter malária", diz. "Parasitas intestinais - banal."

O padre Michael é capaz de ser o clérigo mais mal vestido que alguma vez vi. E o mais nobre.

Há alguém que faça troça dele? Alguém que o ache um hipócrita farisaico? Pelo contrário, daria um excelente Papa.

Na cidade de Juba conheci Cathy Arata, uma freira de Nova Jérsia que passou anos a trabalhar com mulheres espancadas em Appalachia. A seguir esteve em El Salvador, durante a brutal guerra civil que aí grassou, pondo a vida em risco para proteger os camponeses. Há dois anos veio para aqui por conta de um admirável projecto católico chamado Solidariedade com o Sul do Sudão.

A irmã Cathy e os restantes elementos do projecto formaram 600 professores. Estão a combater a fome, não com dádivas, mas ajudando os aldeãos a melhorarem as técnicas agrícolas. Estão também a montar uma escola para profissionais de saúde, com especial incidência na formação de parteiras, para reduzir a mortalidade nos partos.

A cirurgia do hospital agregado a essa escola está a cargo de uma freira italiana. O outro médico é uma freira de 72 anos de Rhode Island. As freiras são o máximo!

A irmã Cathy veria com bons olhos mais descentralização na Igreja, um papel maior para as mulheres e uma ênfase maior no serviço público. Diz que a preocupa às vezes que, se Jesus voltasse, pudesse dizer: "Oh, perceberam tudo mal!"

Também ela daria um excelente pontífice.

E há tantos outros religiosos como elas! Como o padre Mario Falconi, italiano, que se recusou a deixar o Ruanda durante o genocídio e que corajosamente salvou 3 mil pessoas de serem massacradas. Como o padre Mario Benedetti, italiano, de 72 anos, a trabalhar no Congo, de onde fugiu com a sua congregação quando a localidade foi brutalmente atacada por uma milícia. Actualmente, o padre Mario vive lado a lado com os membros da sua congregação congolesa na esqualidez de um campo de refugiados no Sul do Sudão, lutando para conseguir ensino para as crianças que lá vivem.

É por causa destas almas corajosas que respeito a Igreja Católica. Compreendo que muita gente nos EUA despreze uma Igreja cujos dirigentes estão associados a encobrimentos e a posições antediluvianas quanto às mulheres, aos homossexuais e aos preservativos. Mas a Igreja Católica não se esgota no Vaticano.

E, a não ser que estejamos preparados para suportar espancamentos ao lado do padre Michael, para enfrentar senhores da guerra ao lado da irmã Cathy, não temos direito de os denegrir a eles nem à sua Igreja.

Exclusivo i/The New York Times

Jornalista

(fonte Jornal i)

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