Alguém viu o palhaço? Bruxelas não viu
por Miguel Pacheco, Publicado em 03 de Maio de 2010
- Bom dia.
- Olá.
- Viu o palhaço?
- Quê? Palhaço? Qual palhaço?
- Passou por si há bocado. Sentado numa roda.
- A sério? Passou? Não vi.
- Devia estar distraído.
O diálogo é real. Num estudo recente, um grupo de investigadores americanos quis medir o grau de atenção - e de distracção - das pessoas em espaços públicos. O teste era simples: um palhaço, meia dúzia de voltas numa multidão e inquéritos pessoais no fim. As conclusões foram interessantes: 1) quem reparava no palhaço era quase sempre quem estava entretido a conversar com outros; 2) a atenção descia ligeiramente quando as pessoas estavam sozinhas; 3) a atenção descia consideravelmente se o palhaço passava quando o espectador estava entretido ao telemóvel.
Os investigadores colaram os dados recolhidos a uma teoria científica - inattentional blindness (cegueira sem intenção) - e repetiram o que outros psicólogos já tinham concluído. Há uma incapacidade humana de ver coisas que estão à frente dos olhos e a explicação é simples: as pessoas ou não estão preparadas para aquilo ou estão a prestar atenção a outra coisa.
Nas últimos anos, a Grécia foi o palhaço em cima do monociclo, a ave rara que ninguém quis ver. Só assim se percebe que, durante anos, o Eurostat tenha sido incapaz de detectar um défice que foi revisto de 12,7% em Janeiro para 14% em Maio. Só assim se percebe que a incapacidade do governo grego - de acertar nas suas previsões de crescimento e despesa - tenha degenerado numa crise especulativa que arrastou Portugal. Bruxelas também é culpada pela inacção das últimas semanas. O atraso na ajuda à Grécia - só ontem foi aprovado um pacote de 80 mil milhões de euros - é um sinal evidente de que a Europa ainda é uma colecção de estados-membros onde manda a todo-poderosa Alemanha - e não um todo coeso onde a doença de um se torna um risco para todos.
Hoje, os mercados - os altamente especulativos e tendencialmente lucrativos mercados - não acreditam na saúde das contas públicas gregas. Portugal? Talvez acreditem, mas pouco. Acreditam no que lêem - e lêem um país que em Setembro de 2009 e antes de eleições tinha um défice de 5,9%. Hoje tem 9,4%. Que aconteceu em seis meses? A crise, claro, mas também uma boa dose de gestão política interna. A falta de receita fiscal não é de agora. O défice externo também não. Ontem, Cavaco Silva lembrava que tinha feito a análise dos problemas do país há sete anos - e que nada disto é novo. Em 2003 avisou que o défice externo ia aumentar, que o euro não nos protegia de nada, que o ministro das Finanças está sempre isolado porque toma todas as medidas economicamente necessárias que são tradicionalmente impopulares. O país continuou e assobiou. Geriu internamente anos de crescimento reduzido até aterrar de cara no chão. Hoje o problema não é a credibilidade do PEC - é a falta de unidade em torno do país. Ninguém acredita num Estado que exige sacrifícios quando gera demasiado desperdício. Ninguém se atravessa por um país que gere o futuro tapando buracos no presente. O problema do PEC não é a imagem externa que projecta, mas sim as dúvidas internas que alimenta sobre a gestão dos recursos públicos na última década. Dez anos depois, o país está farto de ver passar palhaços.
(fonte Jornal i)
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