quarta-feira, 12 de maio de 2010

DIálogos com o eu

Diálogos com o eu

(O diálogo que gostaria de ter comigo)
Tiago 1 - Finalmente!

Tiago 2 - Então pá, encontraste-me hein?

T1- Sim, mas espera. Deixa-me olhar para mim.
Nunca tinha visto as minhas orelhas!
Nem nunca tinha visto o meu nariz! Nem os meus lábios!
E muito menos os meus olhos!
Apenas tinha visto isso tudo em reflexos... com que então é assim que eu sou...

T2 - Não. Diz antes: é assim que tu pareces.

T1 - Isso, isso. Tens razão.

T2 - E agora que me encontraste, o que vais fazer?

T1 - Hum. Boa pergunta. Para que me serve conhecer-me, afinal?
Ando há quase 25 anos a conviver com um desconhecido,
sem nunca ter metido conversa comigo, e não me tenho safado nada mal.
Por isso, repito, de que serve conhecer-me?

T2 - Para que possas melhor calcular as tuas decisões, para que faças sentido,
para compreenderes as tuas reacções...

T1 - Bah! Pensava que queria isto mas não quero. Vou-me embora, adeus!

T2 - Então? Espera! Conhece-me! estou aqui! Olha-me!

T1 - Não. afasta-te! Ainda estou a tempo de permanecer desconhecido.
Desaparece.
O mundo tem 6 mil milhões de pessoas. Elas que me conheçam.
Não há nada mais estimulante que ver-me ao espelho e ele mostrar-me um mistério.
E é assim que quero permanecer.

T2 - Então para que cá vieste?

T1 - Para me relembrar que não te quero conhecer.
Não quero perder a capacidade de me surpreender todos os dias.
Assim, quando morrer, não terei perdido um amigo, nem um conhecido,
apenas um homem misterioso que assim permanecerá para sempre.
Os outros que me chorem.

T2 - Mas assim nunca vais chegar até mim. Até ti.

T1 - De mim só quero distância, por isso, desaparece, já disse.
Nada melhor que o nevoeiro para ocultar as trevas.

T2 - E se o nevoeiro ocultar algo de bom?

T1 - Também não quero isso para mim. Que fique para os outros.

T2 - Vais-te arrepender.

T1 - Adeus!

ESCRITO POR TIAGO COSTA

segunda-feira, 10 de maio de 2010

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Oxigénio.fm



James Pant
Thin Moon

domingo, 9 de maio de 2010

Elliott Burford is Spam




Inauguração: 1 de Maio, 18h00
Opening Cocktail: 1st May, 18h00

De 1 a 24 de Maio, 10
From 1st to 22nd May, 10


Spam de E-mail, também conhecido como junk mail, é a prática do envio, em massa, de mensagens de e-mail não solicitadas, muitas vezes com conteúdo comercial - anúncios, scams, pornografia - em grandes quantidades a um conjunto indiscriminado de destinatários. Muitas técnicas de filtragem de spamprocuram padrões e palavras-chave nos cabeçalhos ou corpos de mensagens para identificar e eliminar os infractores. Para derrotar os filtros, o spammer pode intencionalmente alterar palavras comumente filtradas e usar frases cada vez mais abstratas, para evitar detecção. Elliott Burford is Spam reinterpreta e ilustra os títulos de spam e-mails.


E-mail spam, also known as junk mail, is the practice of sending unsolicited bulk e-mail messages, frequently with commercial content – adverts, scams, pornography – in large quantities to an indiscriminate set of recipients. Many spam-filtering techniques work by searching for patterns and keywords in the headers or bodies of messages, identifying offenders and deleting. To defeat such filters, the spammer may intentionally misspell commonly filtered words and use increasingly abstract sentences to avoid
detection. This illustration collection by Elliott Burford reinterprets and visualises the titles of spam e-mails.



fabrica.it
elliottburford.com

Multimédia: petróleo, baleias e gente que vive à margem. Para uma cultura mais generalizada!

São cinco projectos multimédia de encher o olho. Esta semana, a mancha de crude que ameaça o Golfo do México tomou conta das infografias, mas a ronda pela internet propõe ainda uma descoberta da baleia azul e vídeos, dos sem-abrigo de Los Angeles ao relato de um dia especial em 1963.
Nas margens do rio
As pontes sobre o rio, em Los Angeles, são a casa de sem-abrigo e outra gente que vive à margem do sistema. O “Los Angeles Times” foi a essa “terra de ninguém” para contar as histórias de quem por lá anda. Os relatos chegam carregados de crueza, mas são também um elogio dos habitantes à beleza e liberdade do local (mesmo que os de fora não as consigam ver).
Mancha de petróleo
A mancha de crude no Golfo do México transformou-se num grande desastre ecológico. O “The New York Times” explica como começou e se espalhou o petróleo que, neste momento, se tornou um pesadelo para as populações próximas do local.
Baleia azul
O National Geographic apresenta uma infografia sobre a baleia azul que é um regalo para quem gosta de aprender e se divertir ao mesmo tempo. Nesta infografia verdadeiramente interactiva pode saber pormenores sobre o tamanho, a anatomia, o comportamento e as ameaças à baleia azul.
Recuar no tempo
Paul Fusco, fotógrafo, conta ao “The New York Times” como foi aquele dia em que seguiu no comboio que transportou o corpo de JFK. Os rostos, as multidões, a consternação nas imagens de 1963 e nas palavras e memórias de 2010.
Vício e amor
Pobreza, droga, amor. Um trio improvável na história de Jason Andrades, um ex-traficante e heroinómano norte-americano que mudou radicalmente de vida. Para ver no Vimeo.

Acha normal mandar SMS durante o sexo? 10% dos jovens acham

Segundo um estudo publicado pelo site Retrevo, 10% dos jovens com menos de 25 anos acha normal escrever mensagens enquanto tem relações sexuais. No mesmo estudo, 49% responde que costuma mandar SMS durante as refeições e 24% quando vai à casa-de- banho.


No metro, no autocarro, à mesa, na casa de banho todos os pretextos são bons para mandar um SMS. Mas o mais recente estudo publicado pelo site Retrevo revela que 10% dos jovens americanos com menos de 25 anos acha que é normal mandar mensagens durante o sexo. Com isso, a palavra "sexting" ganhou um novo significado: não só mandar mensagens com conteúdo sexual, como também mandar mensagens durante as relações sexuais.
O mesmo estudo revela também que 49% dos jovens inquiridos manda SMS durante as refeições e 24% quando vai à casa-de-banho.
Os mais velhos (com mais de 25 anos) também responderam às mesmas perguntas: 27% manda mensagens enquanto come, 12% enquanto vai à casa-de-banho e 6% enquanto faz sexo.
A maioria dos inquiridos (76%) confessa ir à sua página do Twitter e do Facebook antes de dormir e logo de manhã, ao acordar.


(Fonte ionline)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cuidadinho com elas...

"World Press Photo 2010"

Exposição "World Press Photo 2010" abre ao público esta sexta-feira em Lisboa
A exposição - com 179 fotografias selecionadas entre um total de 300 premiadas no concurso anual - abre ao público na sexta-feira no Museu da Eletricidade, em Lisboa, acolhida pela Fundação EDP pelo quarto ano consecutivo.

Chimpanzés também usam ferramentas sexuais


Chimpanzés também usam ferramentas sexuais
Subsistência, socialização, sustento pessoal e também... sexo. Tal como os humanos, os chimpanzés utilizam ferramentas que lhes facilitam a vida quotidiana.

Em 1960, Jane Goodall deixou o mundo de boca aberta ao relatar o comportamento de um chimpanzé no lago Tanganica, que utilizava uma folha para melhor extrair de um carreiro as formigas que queria comer. Cinquenta anos depois, os primatologistas voltam à carga: ss chimpanzés inventam ferramentas para "diversas funções da vida quotidiana, incluindo subsistência, socialização, sustento pessoal e... sexo".
Na revelação, publicada inicialmente na revista "Science", o investigador William McCgrew conta que estes animais usam artifícios para atrair e reter a atenção das fêmeas, com o intuito de acasalarem. "Uma das técnicas consiste em manusearem folhas, o que resulta num barulho característico", detalhou McCgrew posterioremente ao jornal "New York Times". "Imagine que está a rasgar uma folha de papel ressequida ou áspera. O som não tem nada de espectacular, mas é característico".
No mundo dos chimpanzés, os machos apanham essas folhas e sentam-se de pernas abertas, de modo a que a fêmea possa ver a sua erecção. Nessa posição, rasgam as folhas aos poucos, atirando para o chão os bocados que arrancam. "Às vezes ele precisa fazer esta operação com meia dúzia de folhas até que ela perceba", conclui o primatologista.
Acasalamento facilitado

A partir daqui, o passo para o acasalamento é simples: "Presumivelmente ela percebe a erecção do macho, soma dois mais dois e, se estiver interessada, aproxima-se".
Em caso de dúvidas sobre a importância da suposta ferramenta sexual, McCgrew esclarece que o método atende à definição antropológica de ferramenta: "Ele usa um objecto portátil com um propósito. Neste caso, o objectivo não é comida mas sim o acasalamento".

(Fonte: Expresso Online: http://aeiou.expresso.pt/chimpanzes-tambem-usam-ferramentas-sexuais=f580701)

As consequências políticas da "solidariedade"

Para salvar a Europa o remédio mais desejado é a solidariedade. O problema é se o doente não morre do mal e vem a morrer da cura


Já há muito tempo que não se ouvia tanto apelo à "solidariedade europeia". Os tempos são perigosos. A nossa impotência é particularmente frustrante e assustadora. Além disso, poucos são os que duvidam que a presente crise ameaça a sobrevivência da moeda comum. Não há nada, pois, mais lógico que a exigência de "solidariedade" e a correspondente anuência alemã a exercê-la, senão com generosidade, pelo menos com poucos protestos e de crista baixa. Tem sido assim que grande parte da nossa opinião, sobretudo à esquerda, tem brindado os acontecimentos em curso.

Na sua pieguice e alijamento de responsabilidades próprias, a retórica da "solidariedade" é moralmente desastrosa. Como se não bastasse, gosta de trazer consigo o puro ressentimento: ora denuncia a superioridade económica alemã, ora explora o profundo filão dos traumas da história. Contudo, na relutante decisão alemã é provável que tenha contado mais o espectro do malfadado Lehman Brothers. Afinal ninguém deseja ter uma ou duas Argentinas na sua vizinhança.

Mas o que a histeria da "solidariedade" não explicita é que se está a exigir uma União Europeia muito mais centralizada no exercício do poder e com poderes acrescidos de intromissão na vida interna dos estados. Em concreto, um orçamento comunitário que cresça monstruosamente até atingir pelo menos 20 por cento do PIB europeu (o que por sua vez impõe transferências financeiras dos estados-membros muitíssimo mais avultadas), um imposto europeu com dentes afiados e, claro, a expansão da burocracia.

A "solidariedade" significa ainda a perda quase total da autonomia fiscal e orçamental dos estados-membros. Bruxelas, e não os governos e parlamentos nacionais, determinará amplitudes máximas de défices, níveis de despesa e de tributação, e pronunciar-se-á recorrentemente sobre opções políticas particulares. Porém, não será só a retórica da "solidariedade" que produzirá este resultado. O diagnóstico económico dos problemas de que a zona euro padece empurra-nos cada vez mais para este remédio. A ser comprovado que os desequilíbrios entre países na zona euro são insusceptíveis de correcção sem a dita coordenação centralizada das políticas económicas e orçamentais, a escolha que os políticos europeus têm diante de si é muito simples: ou a centralização e o esvaziamento da autonomia que restava aos estados-membros, ou a morte do euro. Dito assim, não custa perceber que os críticos da centralização já perderam a contenda.

Se o euro sobreviver condignamente à tempestade que enfrenta, chegará a duvidosa bonança de uma união política integral.

Professor universitário

(fonte Jornal i)

Quem pode troçar desta Igreja?

A Igreja Católica não é só a do Vaticano: para além das cúpulas, que há muito se desviaram das suas raízes, há uma outra igreja de homens e mulheres que merece todo o respeito e admiração

Jesus não ficou conhecido por pontificar a partir de palácios, encobrir escândalos ou emitir éditos paleolíticos a propósito de questões sociais. Alguém pensará que Ele teria protegido padres que violassem crianças?

As cúpulas da Igreja podem ter-se desviado das suas raízes, mas a maioria das pessoas nas suas bases continuam a ser um exemplo de devoção. Vim até aqui, ao empobrecido Sudão meridional, para escrever sobre problemas sudaneses e não sobre a Igreja Católica. Contudo, mais uma vez, fico espantado por ver que muitas das pessoas altruístas que dão assistência aos mais necessitados do mundo são humildes freiras e padres, que se destacam não pela magnificência do trajo, mas pela magnitude da compaixão.

Como já tive ocasião de referir, parece haver duas Igrejas Católicas: o clube de velhos comparsas no Vaticano e a rede de humildes padres, freiras e laicos em lugares como o Sudão. O Vaticano apoia muitos esforços caritativos e alguns bispos e cardeais são exemplares, mas a grande alma da Igreja Católica encontra-se nas bases mais humildes.

O Vaticano considera que este jornal e outros meios noticiosos têm sido injustos ou manifestado excesso de zelo a esgravatar no encobrimento pela Igreja das violações de crianças. Sou de opinião contrária. Nenhuma instituição fez mais para elevar a estatura moral da Igreja Católica nos EUA que o "The Boston Globe". A sua cobertura pioneira, em 2002, dos abusos perpetrados por padres levou a reformas e, segundo a opinião de muita gente, a uma significativa redução dos abusos. As crianças católicas estão hoje mais seguras, não devido à liderança dos cardeais, mas por causa do "The Boston Globe".

Porém, os dirigentes da Igreja têm razão numa coisa: existe um snobismo liberal e secular contra a Igreja no seu todo, e isso é injusto.

Pode ser fácil, num beberete em Nova Iorque, lançar comentários depreciativos a propósito de uma Igreja cujas cúpulas são chauvinistas, homofóbicas e tão divorciadas da realidade que condenam o uso de preservativos inclusivamente para combater a sida. Mas que dizer do padre Michael Barton, um sacerdote católico de Indianápolis? Conheci-o na remota aldeia de Nyamlell, a 200 quilómetros da estrada alcatroada mais próxima, no Sul do Sudão. Dirige quatro escolas para crianças que sem ela não teriam acesso ao ensino. Os alunos dessas escolas têm as melhores notas nos exames nacionais.

O padre Michael veio para o Sudão em 1978 e fala fluentemente dinka e outras línguas locais. A bem da sobrevivência das suas escolas, suportou a guerra civil, a risão e espancamentos e ainda um sortido de doenças. "É perfeitamente normal ter malária", diz. "Parasitas intestinais - banal."

O padre Michael é capaz de ser o clérigo mais mal vestido que alguma vez vi. E o mais nobre.

Há alguém que faça troça dele? Alguém que o ache um hipócrita farisaico? Pelo contrário, daria um excelente Papa.

Na cidade de Juba conheci Cathy Arata, uma freira de Nova Jérsia que passou anos a trabalhar com mulheres espancadas em Appalachia. A seguir esteve em El Salvador, durante a brutal guerra civil que aí grassou, pondo a vida em risco para proteger os camponeses. Há dois anos veio para aqui por conta de um admirável projecto católico chamado Solidariedade com o Sul do Sudão.

A irmã Cathy e os restantes elementos do projecto formaram 600 professores. Estão a combater a fome, não com dádivas, mas ajudando os aldeãos a melhorarem as técnicas agrícolas. Estão também a montar uma escola para profissionais de saúde, com especial incidência na formação de parteiras, para reduzir a mortalidade nos partos.

A cirurgia do hospital agregado a essa escola está a cargo de uma freira italiana. O outro médico é uma freira de 72 anos de Rhode Island. As freiras são o máximo!

A irmã Cathy veria com bons olhos mais descentralização na Igreja, um papel maior para as mulheres e uma ênfase maior no serviço público. Diz que a preocupa às vezes que, se Jesus voltasse, pudesse dizer: "Oh, perceberam tudo mal!"

Também ela daria um excelente pontífice.

E há tantos outros religiosos como elas! Como o padre Mario Falconi, italiano, que se recusou a deixar o Ruanda durante o genocídio e que corajosamente salvou 3 mil pessoas de serem massacradas. Como o padre Mario Benedetti, italiano, de 72 anos, a trabalhar no Congo, de onde fugiu com a sua congregação quando a localidade foi brutalmente atacada por uma milícia. Actualmente, o padre Mario vive lado a lado com os membros da sua congregação congolesa na esqualidez de um campo de refugiados no Sul do Sudão, lutando para conseguir ensino para as crianças que lá vivem.

É por causa destas almas corajosas que respeito a Igreja Católica. Compreendo que muita gente nos EUA despreze uma Igreja cujos dirigentes estão associados a encobrimentos e a posições antediluvianas quanto às mulheres, aos homossexuais e aos preservativos. Mas a Igreja Católica não se esgota no Vaticano.

E, a não ser que estejamos preparados para suportar espancamentos ao lado do padre Michael, para enfrentar senhores da guerra ao lado da irmã Cathy, não temos direito de os denegrir a eles nem à sua Igreja.

Exclusivo i/The New York Times

Jornalista

(fonte Jornal i)

Alguém viu o palhaço? Bruxelas não viu

Alguém viu o palhaço? Bruxelas não viu
por Miguel Pacheco, Publicado em 03 de Maio de 2010


- Bom dia.

- Olá.

- Viu o palhaço?

- Quê? Palhaço? Qual palhaço?

- Passou por si há bocado. Sentado numa roda.

- A sério? Passou? Não vi.

- Devia estar distraído.

O diálogo é real. Num estudo recente, um grupo de investigadores americanos quis medir o grau de atenção - e de distracção - das pessoas em espaços públicos. O teste era simples: um palhaço, meia dúzia de voltas numa multidão e inquéritos pessoais no fim. As conclusões foram interessantes: 1) quem reparava no palhaço era quase sempre quem estava entretido a conversar com outros; 2) a atenção descia ligeiramente quando as pessoas estavam sozinhas; 3) a atenção descia consideravelmente se o palhaço passava quando o espectador estava entretido ao telemóvel.

Os investigadores colaram os dados recolhidos a uma teoria científica - inattentional blindness (cegueira sem intenção) - e repetiram o que outros psicólogos já tinham concluído. Há uma incapacidade humana de ver coisas que estão à frente dos olhos e a explicação é simples: as pessoas ou não estão preparadas para aquilo ou estão a prestar atenção a outra coisa.

Nas últimos anos, a Grécia foi o palhaço em cima do monociclo, a ave rara que ninguém quis ver. Só assim se percebe que, durante anos, o Eurostat tenha sido incapaz de detectar um défice que foi revisto de 12,7% em Janeiro para 14% em Maio. Só assim se percebe que a incapacidade do governo grego - de acertar nas suas previsões de crescimento e despesa - tenha degenerado numa crise especulativa que arrastou Portugal. Bruxelas também é culpada pela inacção das últimas semanas. O atraso na ajuda à Grécia - só ontem foi aprovado um pacote de 80 mil milhões de euros - é um sinal evidente de que a Europa ainda é uma colecção de estados-membros onde manda a todo-poderosa Alemanha - e não um todo coeso onde a doença de um se torna um risco para todos.

Hoje, os mercados - os altamente especulativos e tendencialmente lucrativos mercados - não acreditam na saúde das contas públicas gregas. Portugal? Talvez acreditem, mas pouco. Acreditam no que lêem - e lêem um país que em Setembro de 2009 e antes de eleições tinha um défice de 5,9%. Hoje tem 9,4%. Que aconteceu em seis meses? A crise, claro, mas também uma boa dose de gestão política interna. A falta de receita fiscal não é de agora. O défice externo também não. Ontem, Cavaco Silva lembrava que tinha feito a análise dos problemas do país há sete anos - e que nada disto é novo. Em 2003 avisou que o défice externo ia aumentar, que o euro não nos protegia de nada, que o ministro das Finanças está sempre isolado porque toma todas as medidas economicamente necessárias que são tradicionalmente impopulares. O país continuou e assobiou. Geriu internamente anos de crescimento reduzido até aterrar de cara no chão. Hoje o problema não é a credibilidade do PEC - é a falta de unidade em torno do país. Ninguém acredita num Estado que exige sacrifícios quando gera demasiado desperdício. Ninguém se atravessa por um país que gere o futuro tapando buracos no presente. O problema do PEC não é a imagem externa que projecta, mas sim as dúvidas internas que alimenta sobre a gestão dos recursos públicos na última década. Dez anos depois, o país está farto de ver passar palhaços.


(fonte Jornal i)

segunda-feira, 3 de maio de 2010